POR
QUE ME TORNEI ATEU ?
I
- AS DUVIDAS
Eu
sou mineiro, nascido em 1941, numa cidadezinha do sudeste de Minas, chamada São
Vicente de Minas. Até os 20 anos, eu , ainda, acreditava na existência de Deus. Desde então comecei a
passar por uma crise de fé. Comecei a perceber que havia algo errado comigo. Estudava
em Belo Horizonte, frequentava os cultos da Igreja da Boa Viagem mas não me
sentia bem com aquela liturgia ou fazendo aquelas orações repetitivas desde
criança. Não conseguia me convencer de
que a fé pura e simples em Deus fosse suficiente para aplacar a minha vontade
de saber mais sobre a origem, a finalidade da vida e a existência de um Deus
poderoso criador do mundo, onipotente, onipresente, onisciente, incriado que
era bom e mau ao mesmo tempo, que podia dispor da vida dos homens tão
diferentes entre si. Uns ricos e opulentos e outros pobres e miseráveis. Que distribuía
benesses e graças, premiava os bons e punia os maus. Não conseguia entender a
diferença entre ser bom e ser mau. Não conseguia acreditar: se fossemos bons morreríamos
para viver uma vida eterna num paraíso que não conseguia entender como era e
para que serviria, e, se fossemos
maus morreríamos para viver ardendo no
fogo do inferno, também sem saber para que. Não assimilava, por isto, a ideia de céu, de inferno e de purgatório e ,com tantas dúvidas,
já duvidava da existência de uma vida sobrenatural. A fé era muito pouco para
tantas dúvidas que assolavam o meu pensamento. “A fé não se explica; a fé é um dom de Deus” repetiam os padres. Era
preciso rezar muito e pedir a Deus para não perder a fé o que seria a maior desgraça que pode acontecer
a um homem, diziam. Era tudo meio
confuso e contraditório e eu, dia após dia, ia “perdendo a fé” e duvidando de
tudo. Por que então eu ficava preocupado com religião ? indagava de mim mesmo.A
religião tornou-se para mim, uma permanente inquietação. Eu queria saber mais.
Eu queria mais justificativas, mais provas de que a religião era fundamental. Procurei
buscar explicação nos livros, mas quase
todos falavam da mesma coisa: fé, muita fe. Lia muito. Até que um dia veio-me,
`as mãos, um pequeno livro cujo título era “A origem da Vida” de um cientista russo chamado Aleksandr Oparin. Li com ansiedade,
aquele pequeno livro, que me deixou perplexo. Não se falava de Deus em nenhum
momento como origem da vida. A tese criada por Oparin, na década de 1920, era
de “coacervados” moléculas orgânicas que
se formavam a partir de moléculas inorgânicas. Matéria de biologia que,
entretanto, como a teoria da evolução de Charles Darwin, não era ensinada na
escolas por influência e oposição da
religião e da teoria do creacionismo esta sim ensinada na forma de uma historinha
de Adão e Eva. Começava ali a desmoronar toda a minha crença em Deus e nas
religiões.
II-
MINHA INFANCIA
Foram 20 anos
de religiosidade. Desde muito pequeno fui criado, pelos meus pais, na crença em Deus, na religião católica e na
prática religiosa das orações e cultos religiosos como a reza do terço todos os
dias e a missa aos domingos, mas já achava
super enfadonho o tal terço, com aquelas
tediosas repetições de “aves marias”. Aquilo era para mim uma tortura. Meu pai,
diariamente, obrigava-me e a meus
irmãos, ao anoitecer, a ajoelhar em torno da cama do quarto dele, para o tal
terço.
Aos seis anos
já era coroinha, na igreja. Rezava a missa respondendo em latim ao que o padre
falava em latim: o padre entoava “Introibo ad altare Dei” e eu respondia “Ad Deo qui laetifica
juventude mea ...” Ainda não entendia o significado daquelas palavras mas sabia
tudo de cor. Aos poucos eu ia me envolvendo cada vez mais com as coisas da
Igreja para alegria e satisfação de meus pais que se orgulhavam do coroinha que falava latim,tinha um função na igreja e, assim,
se
sentiam bem com Deus. Confesso
que já nesta época eu tinha alguma dúvida com relação a validade de tudo
aquilo, culto, missas, terços e tinha
uma indisfarçável vergonha de mim mesmo, vergonha de ser coroinha. Lembro-me
que às vêzes via na igreja pessoas desconhecidas, de fora, rezando e assistindo missa e me
perguntava: será que estas pessoas acreditam nisso ?
Apesar
de muito religioso ou até mesmo por isto, meu pai era muito severo
comigo. Filho mais velho carreguei sempre o fardo pesado desta condição. Meu
pai me privava de tudo que ele considerasse vagabundagem e semvergonhice. Brincar
e viver alegremente, como uma criança normal, era proibido. Modernidades,
brinquedos, lazer, futebol, nem pensar. Certa
vez fui escondido pescar com um amiguinho e seu pai.Quando voltei para casa
levei uma surra.Meu pai dizia que pescar era coisa de vagabundo. Eu tinha só
que estudar, trabalhar e rezar. Qualquer desvio desta conduta era reprimido com
surras memoráveis e castigos duríssimos. Um dia meu pai apareceu com um livro
escrito por um padre chamado Lucas. Era sobre a vida de um menino de Monsenhor
Paulo, cidade perto de Varginha, que estudara no Seminário de Campanha, e que
ficou doente e acabou morrendo como um santo , segundo o Pe.Lucas. Não me lembro o nome do menino. Meu pai mandou
que todos os dias eu devia ler o livro em voz alta para ele. Eu mal aprendera a
ler e às vezes soletrava as palavras ou pronunciava errado e era repreendido.
Como castigo meu pai mandava copiar aquela página ou aquela palavra várias vezes
num caderno. Por fim eu já tinha copiado o livro inteiro. A leitura do livro
talvez tenha despertado em mim a vontade ou ideia de ir para o Seminário em Campanha
estudar para ser padre, até porque era uma maneira de ficar livre da opressão
de meu pai. Falei com o pároco da minha
cidade, que queria estudar para ser padre.Ele
aprovou a ideia, mas era preciso
concluir o curso primário.
Enquanto isso a minha vida era assim: estudar, trabalhar,
rezar e apanhar. Brincar nem pensar. E todas as vêzes que dava uma fugidinha
para brincar, jogar pelada, na rua,
ouvia um assobio fino e estridente, que meus amigos e eu já conhecíamos. Era meu pai chamando para dentro de casa e vinha
logo uma reprimenda ou uns petelecos na cabeça, Aos 6
anos era obrigado a levantar às 4 horas da madrugada para ir, com meu
pai, ao sitio tirar leite. Todos os dias, naquela hora, meu pai me acordava e
eu tinha que deixar a cama quentinha onde dormia com mais dois irmãos menores,
para enfrentar, com calças curtas, o frio da madrugada. E lá ia eu, atrás de
meu pai, pelas ruas escuras e desertas, da minha pequena São Vicente, ouvindo
os galos começando a cantar aqui e acolá. Antes de o dia clarear, eu já tinha
juntado os bezerros e buscado as vacas no pasto, com o orvalho molhando as
minhas pernas nuas e pés descalços. Eu aprendi pequeno, porque meu pai assim o
queria, a amarrar as pernas das vacas e o pescoço dos bezerros na perna direita
das vacas. Meu pai tirava o leite em um balde e colocava em umas latas com
tampa de rosca. Havia um cavalo branco que
levava as latas para a fábrica de laticínios na cidade. Eu sempre era o primeiro a chegar
puxando o cavalo e tinha que ouvir todo dia a gozação dos empregados: “madrugou
hoje hein Zé ? Seu Datinho (apelido de meu pai) não te dá moleza. Bota o menino
cedo pra trabalhar... Tem que esperar. O tanque ainda não está pronto”. Era
assim, dia após dia, até que o sítio foi vendido, imagina a quem, ao pároco.que
gostava bem de uns bens.
Sempre tinha um
trabalho para fazer, ou então tinha que pajear os irmãos menores. Outro
trabalho que tinha depois que voltasse da escola,quando não estava pajeando, era
coar terra numa peneira. Meu pai tinha uma máquina de beneficiar arroz que
separava o arroz da terra que vinha da roça, misturada no arroz, antes de
descascá-lo. Mas alguns grãos de arroz ficavam misturados com a terra e eu
tinha que coá-la para aproveitar estes grãos. Eu tinha entre 7 e 9 anos. O pó da terra entrava pela boca e
nariz e formava barro na minha garganta. Meu pai criava porcos e galinhas, no
quintal da casa, e eu era quem os tratava, todos os dias. Depois meu pai montou
uma engarrafadora de aguardente e eu era obrigado a lavar as garrafas e retirar
os rótulos velhos colados nas garrafas. Eram centenas de garrafas por dia. E assim chegou o dia de me livrar destes
trabalhos, das surras, das rezas e dos castigos. Aos 11 anos terminei o curso
primário, fui para o Seminário estudar para ser padre...
III
– O SEMINÁRIO
Num certo dia
de fevereiro, de 1953, como sempre de madrugada, meu pai me acordou. Ia me
levar para o Seminário, em Campanha. Meu pai havia comprado uma caminhonete Doodge azul. Nesta época ele estava montando
uma fábrica de laticínios na fazenda de minha avó materna e a caminhonete era
para a lida na fábrica. Minha mãe preparou minha mala. Dizia que era o meu
enxoval para o Seminário. Não entendia bem porque minhas roupas eram chamadas
de enxoval,que eu ouvia dizer que era so
para noiva. E lá fomos nós para Campanha. Meu pai contratou um motorista
para ir dirigindo a caminhonete. Eram mais de 150 km de estrada de terra, que
passava por Andradina (Minduri), Cruzília, Caxambu, Conceição do Rio Verde,
Cambuquira e Campanha.Tudo era novidade para mim que nunca havia saído de
S.Vicente. Chegamos em Campanha às 14hs. Senti um cheiro forte de flor de mamão
exalando pelas ruas da cidade. Aquilo ficou marcado para sempre na minha
lembrança. Era tudo muito diferente do que eu estava acostumado. A cidade era
calçada de paralelepípedos que eu não conhecia e achei aquilo bonito.
Fomos direto para o Seminário e fomos
recebidos pelo Reitor Pe. Domingos. Meu pai pediu para receber uma benção do
Bispo D.Inocêncio Engelke. O Padre nos levou ao Palácio que ficava em frente ao
Seminário. Aquilo tudo era um deslumbramento para mim. Um palácio ! O Bispo ! O
Seminário ! Chegou a hora da despedida. Eu ia ficar só e indefeso. Meu pai
voltaria com o motorista para S.Vicente. O coração estava apertado, mas não
chorei. Bateu uma saudade imensa da minha mãe e dos irmãos. Quando comecei a
desfazer a mala para colocar no armário que me foi destinado, encontrei dentro
da mala um pedaço de queijo prato com um pedaço de goiabada, escova de dente e
dentifrício Kolynos, além das roupas e toalhas arrumadinhas que minha mãe
colocara. Aquilo me tocou profundamente e a saudade bateu forte. Será que aguentaria
aquela dor ? Nunca pensei que ia sentir tanta falta de minha mãe. Era muito
intenso. Chorei baixinho. Uma sineta
tocou e fomos chamados para um lugar conhecido como Pórtico, nunca ouvira falar
deste nome. Era um lugar onde os seminaristas normalmente se reuniam ou faziam
fila antes de ir para a Capela ou para as salas de aulas ou para o Dormitório
ou para o Refeitório.
Ali
reunidos, perfilados, todos os seminaristas, chegaram alguns padres
e à frente deles o Pe.Domingos. Um silêncio sepulcral tomou conta do Pórtico.
Pe. Domingos era temido pelos alunos e começou a fazer uma preleção, sobre as
principais regras e recomendações. Estava curioso para saber qual daqueles
padres era o Pe. Lucas do livro. Eles foram se apresentando e o Pe. Lucas era
alto e corpulento , tinha um semblante sereno e um sorriso tênue quase cínico,
nos lábios.Olhei com admiração aquele escritor que via num menino seminarista qualidades
de santo, mal sabia eu que, ele
mesmo não era nada santo... Havia uma separação, de um lado ficavam os seminaristas
maiores, eram quase padres e de outro os menores. Havia seminaristas de todas
as cidades do sul de Minas. Entre os maiores havia dois de S.Vicente e entre os
menores havia além de mim mais três. Campanha era a sede da diocese a qual
pertencia S.Vicente. Não vou descrever os cinco anos que passei no Seminário, o
que é objeto de outras considerações, apenas dizer que antes de ser ateu
quase me tornei padre, aprendi latim e
li e reli a Bíblia. Ali fui moldado e esculpido na melhor forma religiosa.
Afinal eu ia ser um padre, o pregador da palavra de Deus, o representante de
Deus, na terra, como diziam. Portanto não me tornei ateu por ignorância
religiosa, comodidade ou conveniência. Tinha muito conhecimento da religião.
Posso dizer que sei muito da missa, da bíblia e de outras coisas mais.
IV
– A DESCRENÇA
Aos 17 anos,depois de cinco
anos de Seminario,numas férias, falei com minha mãe e depois com meu pai que eu
não queria mais estudar para padre. Antes passei maus momentos com medo da
reação deles e mais ainda sentindo o quão eles iriam ficar tristes com a minha
decisão. Não sei o que eles sentiram por dentro com a notícia que lhes dava. Só
me lembro que eles foram compreensíveis comigo. Estudei, depois, dois anos em
um internato em Cruzília onde também estudavam quatro irmãos meus. Aos 19 anos
fui para Belo Horizonte estudar o curso científico. A crise religiosa começou,nesta
epoca. Após ler o livro de A.Oparin eu
não parei mais de ler tudo que me passava pela frente, além dos livros de Direito. Li filosofia, história, sociologia e cheguei aos
alemães, o dialético J.Hegel, o materialista L.Feuerbach e os amigos Karl Marx e F.Engels fundadores
da corrente filosófico-economico-sociológica, conhecida como marxismo. Nunca
imaginara que tanta gente, na História, já tratara daquelas questões que me
afligiam. Eu começava a descobrir um mundo novo. Li muitos livros marxistas, socialistas e
comunistas porque eram onde eu encontrava as explicações e interpretações mais
racionais e lógicas que eu procurava e precisava e que me davam muita satisfação. Comecei a perceber porque a
religião anatematizava tanto os comunistas, considerados hereges e contra Deus.
Era como se eu estivesse mudando de lado. De seminarista, religioso passei para
o lado de socialistas revolucionários e ateus. Uma mudança radical. Do lado santo passei para o lado herético, do
mal. Mas aquilo não me apavorava e nem me preocupava. Pelo contrário. Era algo
fenomenal acontecendo comigo. E cada vez mais eu lia e descobria um novo mundo
se abrindo à minha frente. Parecia que eu estava saindo das trevas da fé e da
religião e entrando num mundo luminoso da vida; saindo da opressão da mente
para a sua libertação. Agora tudo que era obscuro se tornava absolutamente
claro e límpido. E foi assim que comecei uma grande caminhada pela vida e pela
filosofia marxista. Procurei ali uma opinião de Marx sobre Religiao e encontrei na sua “Critica da filosofia de
direito de Hegel”. Ele dizia: “A
religião é o suspiro da criatura atormentada, o coração de um mundo sem
coração, como é o espirito de uma existência sem espirito. É o opio do povo.” Perguntado
como se prova a existência de Deus, Marx
respondeu “como posso provar o que não existe...”. Voltaire,repetindo Heraclto,
dizia que Deus é uma criação do homem. Neste momento já podia dizer que a ideia de
Deuns estava irremediavelmente morta em mim. Outra ideia tomava conta dos meus
pensamentos, a ideia de que havia muito mais coisas entre o céu e a terra do
que imaginava a minha pobre ignorância e
queria saber tudo delas.
V
- A FILOSOFIA
Eu já havia estudado Historia da Filosofia,
uma das matérias do vestibular de Direito,em 1964, juntamente com Latim, mas
nada que se igualasse à Filosofia marxista. As teses de Platão, de São Tomaz,
de Santo Agostinho, de Berkeley e de Bergson, que até então me pareciam interessantes se esvaiam como
fumaça, ante a tese materialista dialética
marxista. Até filósofos considerados agnósticos como Hobbes e Espinosa ou materialistas como Heráclito, Demócrito,
Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Bacon,
Locke e Descartes ficavam pequenos ante a contundência do materialismo dialético marxista. O próprio
Hegel ,considerado gênio da filosofia moderna , foi criticado por
Marx como um dialético idealista que
não soube colocar a dialética de cabeça
para cima. Admirador do materialista Feuerbach, Marx o criticou por conceber de forma idealista o desenvolvimento
da sociedade atribuindo `a moral e `as
relações morais forca motriz da Historia.
E assim ia descobrindo que a filosofia
que eu estudara, antes, era uma filosofia equivocada e teísta por conta também
do meu teísmo. O saber abaixo de Deus. Havia
uma outra filosofia , que procurava o saber acima e além de Deus. Aprendi que a filosofia autêntica não girava em torno
Deus, mas ao redor do mundo material em que vivíamos.Tudo se explicava. Tudo se
encaixava claramente. Não havia nada que dependesse de fé. Era pura ciência. A
única limitação era a ignorância humana. Mas tudo estava aí, mais claro que a
luz do sol para o homem entender e compreender. Era apenas necessário romper os
grilhões da simples fé, da simples crença e e da ignorância e substituí-los
pelo conhecimento e pela ciência. Ciência é conhecimento empírico, testado e
incontestado. Ciência é a simbiose do homem com a matéria. Esta matéria que
está aí, perto de nós, ao nosso redor. Nada além disso, nada do além é
necessário. Tudo está aqui ao nosso redor.
Assim eu ia selecionando as minhas leituras e
abandonando o estudo da filosofia teísta que coloca Deus no centro do
pensamento e me dedicava ao estudo da filosofia
marxista que coloca a matéria neste centro.
Aprendi com o
marxismo que a filosofia teísta é
conhecida como Idealismo porque
atribui à ideia (Deus) a origem ou criação da matéria. Daí a conclusão
idealista de que a matéria é criada pela idéia. Que ideia ? O espírito, o
pensamento, a consciência. Para os idealistas a matéria foi criada por um
espirito (Deus), ou seja Deus criou do nada o mundo e tudo o que nele existe,
como eles sempre dizem.
Ao
contrario, a filosofia conhecida como Materialismo, o é porque atribui à matéria
(ser , natureza) a origem ou criação da
idéia. Daí a conclusão materialista de que a ideia, o espírito, o pensamento, a
consciência, inclusive Deus, são fenômenos decorrentes da matéria. Mas que matéria ? Tudo
o que compõe a materialidade do mundo, o ser, a natureza e os fenômenos
naturais. O cérebro humano , por exemplo, é uma matéria, palpável e objetiva. É
ele que gera a idéia, o pensamento, a consciência. Isto eu aprendi com F.Engels,
um filosofo amigo de Marx, em “AntiDuhring”.
Corte-se a cabeça de um homem e ele não pensará mais, não terá ideias, não terá
consciência. Por outro lado, as ideias, os conhecimentos armazenados no cérebro
são reflexos da realidade objetiva. Só se tem ideia de um objeto depois de se
ver e observar este objeto. Não se tem ideia de algo que não exista
objetivamente, concretamente.
Aqueles
que defendem a tese de que a idéia
(Deus, o espírito, o pensamento, a
consciência) deu origem à matéria são
conhecidos como Idealistas, no
sentido filosófico. Já os que defendem a tese de que a matéria (o ser, a
natureza) é que deu origem à ideia (espírito,pensamento e consciência) são
conhecidos como Materialistas no
sentido filosófico.
Eis aí, segundo Georges Politzer, um
professor francês de filosofia na Universidade Operária de Paris e que morreu
pelas balas nazistas em Mont Valerian, em maio de 1942, quando lutava contra a
ocupação nazista da França, os dois princípios fundamentais da filosofia sao: Idealismo e Materialismo. Dizia ele “...o mundo em seu conjunto se
explica, em última análise, por dois princípios e dois somente. Estamos na
presença inevitável do problema fundamental da filosofia: o idealismo e o
materialismo.” Tambem V.Afanasiev, em seu livro Fundamentos de
Filosofia(Ed.Civilizacao Brasileira-1968) ressalta a oposição entre Idealismo e
Materialismo como o problema fundamental da Filosofia.
Portanto, Idealismo, no sentido filosófico, é a concepção segundo a qual a idéia,(a
consciência, o pensamento) é anterior, precede à matéria e Materialismo, no sentido filosófico, é a concepção segundo a qual a matéria (o ser, a natureza) é anterior, e precede à idéia.
Idealistas no sentido filosófico são os defensores do
idealismo no sentido filosófico. Materialistas no sentido filosófico são os
defensores do materialismo no sentido filosófico. Estes termos diferem, pois,
dos mesmos termos no sentido vulgar, que aliás, passam a ter significados
totalmente contrários. Idealistas no sentido vulgar são pessoas com idéias
nobres e materialistas no sentido vulgar são pessoas apegadas aos bens materiais. Não fazer
corretamente estas distinções pode levar a conceitos totalmente equivocados.
Com estes conceitos e considerações, a crença em Deus
ficava cada vez mais insustentável. Lendo Marx pude tomar conhecimento de
Feuerbach ,um materialista que definiu lapidarmente : “não foi Deus quem criou
o homem, mas o homem é quem criou Deus”,
talvez repetindo Voltaire e outros filósofos mais antigos como Heraclito,que já
dizia a mesma frase. Esta frase me fez pensar muito e constatar, na realidade,
o quanto era verossímil. Feuerbach desenvolve a tese de que o homem em busca de
explicação para a sua existência, se projeta, se aliena para fora de si e cria
um Deus poderoso a sua imagem e semelhança. Eu diria que. na sua ignorância e
incapacidade de compreender os fenômenos naturais, como a chuva, o raio, o
relâmpago, o trovão, o homem os atribuía
a uma manifestação de um ser que tinha tanta força e poder que era capaz de provocar
tanto temor e pavor. A este ser denominou de deus, deuses a principio, na
antiguidade e depois Deus único, na
modernidade. Por não saber o que eram as estrelas, o sol, a lua,o mar, etc. o
homem os elegia como deuses e os adorava. Hoje sabemos que aquelas
manifestações e estas coisas são simplesmente matéria, e mesmo assim, a maior
parte da humanidade, ainda, continua insistindo na existência de um Deus, criador desta matéria.
O idealismo é uma concepção do mundo que vem desde os
primórdios do gênero humano. O homem primata convivia com a matéria (a
natureza), mas não tinha ainda o desenvolvimento intelectual suficiente para entender os fenômenos
materiais (da natureza) e os atribuía a uma entidade sobrenatural. Assim o
idealismo nasceu com o homem primitivo. Milhões de anos se passaram e o
idealismo prevalecia como verdade incontestável de povos e civilizações que se
sucederam desde o aparecimento do “homo
sapiens”. É por isto que o idealismo chegou, com força determinante, até nossos
dias a ponto de mais de 95% dos atuais habitantes da terra acreditarem, ainda, que um ser sobrenatural é quem criou e rege o
universo.Isto é o idealismo. A ideia precede a matéria. A ideia cria a matéria.
Já o materialismo é muito jovem. As primeiras
manifestações do materialismo que se conhecem no mundo ocidental surgiram entre
540 e 480 anos a.C. quando viveu o
pensador grego Heráclito que foi o primeiro materialista filosófico, de que se tem noticia. Na India 400 anos a.C. viveram os Charvakas,
os Sankhyas, os Nyayas, os Vaiseshikas e outros que manifestavam conceitos ou
pensamentos materialistas.
Heráclito declarava que tudo ocorre por meio da luta e
por necessidade. O homem traz implícito o vivo e o morto, o vigilante e o
sonolento, o jovem e o velho. As coisas podem estar frias e quentes, secas e úmidas,
passando constantemente de um estado a outro, o frio esquenta e o quente
esfria. O úmido seca e o seco umidece. Estas são as primeiras manifestações
dialéticas de que se tem notícia. Estas manifestações são a origem do método
dialético fazendo, assim, de Heráclito, ainda que com sua dialética
materialista ingênua, o fundador da primeira forma do pensamento dialético. Ele
dizia que tudo fluía e se transformava e que era impossível mergulhar duas vezes
no mesmo rio. Para ele o fogo era um fenômeno natural, móvel , o elemento ativo
e eternamente vivo do mundo, este mundo que não foi criado por deus nenhum nem
por qualquer homem, mas sempre existiu e continuará existindo como um fogo
eternamente vivo,acendendo-se e extinguindo-se. Depois de Heráclito, entre 460
e 370 a.C. viveu outro grego chamado
Demócrito que formulou a teoria atomistica (estrutura da matéria). Dizia
que o mundo estava constituído por átomos e pelo vazio. Os átomos eram
partículas invisíveis da forma e tamanho distintos que combinando-se uma com as
outras criavam toda a diversidade de objetos sem sofrerem elas próprias
alterações alguma. Para Demócrito os
átomos eram imutáveis, eternos, indivisíveis e impenetráveis. Impressionantes
estas afirmações sabendo-se que, 2 mil anos, depois, a fissão nuclear do átomo
provocaria uma explosão e uma revolução na física. As ideias de Demócrito
eram combatidas por outro grego Platão
(427 a347 a.C.) que era um idealista. Platão afirmava que os materialistas e
ateístas como Demócrito e seus discípulos eram criminosos perigosos e defendia
a pena de morte para eles.
Entre
384 e 322 a.C viveu, também, na Grécia o filósofo Aristóteles que combatia Platão embora tivesse sido seu discipulo, afirmando
que o mundo material existia objetivamente e que a natureza não dependia de
ideia alguma e foi o primeiro a afirmar que a matéria estava em constante
movimento classificando-o em tres
estágios fundamentais: nascimento, transformação e destruição. Dois mil
anos depois o químico Lavoisier
faria uma correção na teoria aristotélica do movimento afirmando absolutamente
que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”
Poderíamos relacionar aqui os chamados
filósofos idealistas e os filósofos materialistas da era moderna, facilmente
identificáveis através de seus textos e de sua teorias, mas não cabe neste
momento.
E assim, os filósofos materialistas,
desde Heráclito até Marx, iam dando a sua importante contribuição para destruir
a hidra idealista que ainda insiste em manter escravizados mais de 95% da humanidade.
Vimos, portanto que a questão
fundamental da Filosofia é a questão do Materialismo versus Idealismo.
Basicamente a filosofia se resume no estudo comparativo destas duas teorias.
Fora destas duas teorias, o resto é
variações de um mesmo tema. E deste núcleo fundamental, a teoria materialista é
infinitamente superior em racionalidade, em cientificidade e em veracidade à
teoria idealista.
VI- A
RELIGIÃO
Da teoria idealista decorrem as inúmeras crendices e
religiões que assolam a humanidade e são responsáveis por todas as desgraças,
tragédias guerras, sofrimentos e mortes do homem. As religiões e crendices
são o flagelo da humanidade. Sem sombra
de dúvidas a teoria idealista é o que há de mais maléfico e perverso que há na face da Terra. Milhões de seres humanos
tombaram e tombam por causa e em conseqüência desta famigerada teoria. Esta
teoria é a causa e a responsável também pela manutenção da ignorância humana
ate nossos dias. É uma erva daninha difícil de ser erradicada porque ela
manipula o medo e o egoísmo do homem através da crença numa vida sobrenatural
povoada de espíritos e divindades que alimentam o ideário, o imaginário humano
das crendices mais bizarras e irracionais possíveis. Basta entrar numa igreja ou
templo qualquer, destes que brotam como cogumelos, por toda parte, e ouvir, ali,
o que se prega, o que se fala e o que se propaga. Instila-se, à exaustão, o
medo ao fogo eterno para onde irão as pessoas pecadoras e não tementes a Deus
ou que não se submeterem `aqueles conceitos.O pecado é a invenção da religião
para enquadrar o homem nos cânones da religião e inculcar nele a culpa que o
faz submisso, sob pena de ser condenado ao fogo eterno(o inferno). Por outro lado, prega-se, para atrair as
pessoas fragilizadas, medrosas ou com problemas de saúde e de dinheiro, a solução de todos os seus
problemas, a cura de todas as suas doenças. Promete-se o paraíso e a vida
eterna e a bem aventurança no céu. O
egoísmo e o oportunismo dos medrosos e fragilizados são massageados e manipulados para que aceitem aquelas palavras de salvação
e promessas desde que façam oferendas a Deus ou melhor aos pregadores. O homem
medroso dos terríveis castigos da divindade pensa que ele é mais esperto que os
outros e que vai conseguir o melhor lugar na bem-aventurança celestial e vai
ter vida eterna. Então é impelido ou compelido pelo seu egoísmo a abraçar
aquela religião ou crença e contribuir financeiramente para ser compensado
privilegiadamente, não só na eternidade como na vida terrena, com a solução dos
seus problemas. Egoísmo e medo é a mola propulsora do crente; do fiel, só
hipocritamente submisso aos ditames da religião. Há uma proposta compensatória
ao fiel submisso. Pela sua adesão e submissão receberá, além da vida eterna, no
paraíso, todas as benesses aqui na terra como solução de seus problemas, cura
de suas doenças, emprego, sucesso nos negócios, no amor, no casamento, ganho de
dinheiro, etc. etc., desde que contribua financeiramente com a sua seita,
igreja, comunidade ou que quer que se denomine. Daí o surgimento de colossais
impérios econômicos e financeiros como o da chamada Igreja Universal do Reino
de Deus, da Igreja Católica, da Igreja Renascer, da Igreja dos Santos dos
Últimos Dias, da Igreja da Graça, da Asembléia
de Deus, para citar só algumas espalhadas pelo Brasil. Há outras milhares no mundo todo. Éh a erva
daninha que se alastra por todo o globo terrestre. É a hidra da qual quanto
mais se cortam as cabeças mais cabeças nascem. Elas dominam, sufocam e escravizam a
humanidade, mantendo-a submissa aos seus perversos desígnios..
O motivo, pois, que faz o homem aderir
a estas religiões, é, além da própria ignorância frente à vida, à ciência, e à
razão, o egoísmo de querer obter para si,
a vida eterna, as benesses terrenas e sobrenaturais e o paraíso. É o medo de ser
condenado ao fogo eterno do inferno,também criado pela ignorância humana e
propalado pelas religiões como um lugar imaginário para onde irão os rebeldes e
insubmissos..
As igrejas, as seitas e as crendices
têm também o papel de subjugar o homem na sua personalidade, mantê-lo submisso
e conformado com a sua indigência em troca de vida eterna. Com isto ganham os
poderosos e ricos, normalmente aliados das igrejas, pois seus empregados não
vão ficar reivindicando seus direitos terrenos na esperança de obter os seus
direitos celestiais. Portanto a religião e as crendices estão também a serviço dos poderosos e oportunistas que
precisam manter na ignorância e na submissão as pessoas que trabalham para
eles. A religião, ao contrário do que pensam os crentes, ao invés de ser uma
forma de libertação e salvação, é uma
forma de escravidão, de subserviência da qual se beneficiam os espertalhões
picaretas,papas,bispos padres, pastores,apóstolos e os ricos e poderosos que
não terão porque temer a ameaça dos crédulos e crentes aos seus interesses.
Basta ver os dez mandamentos de Moisés. São normas de enquadramento e de
submissão do homem. Alguns ditames morais apenas dissimulam este enquadramento
e submissão. A rigor, pois, o objetivo é fundamentalmente o de sujeição,
submissão e dominação; manter sob os grilhões da ignorância que escravizam
moral e psicologicamente milhões de pessoas, enfim, mantê-las conformadas com as vicissitudes da
vida terrena para ganhar a vida eterna.
VII
– CONCLUSÃO
Por tudo isto e
muito mais eu abandonei o idealismo filosófico e abracei o materialismo
filosófico e, consequentemente, me tornei ateu posto que a crença religiosa, a crendice e a fé no
sobrenatural são incompatíveis com o
materialismo filosófico que nega a existência de Deus e do sobrenatural.
Resolvida, para
mim, a questão da prevalência e da precedência da matéria sobre a ideia, estava resolvida a grande e única
questão filosófica materialismo versus idealismo. Provado que a ideia não tem precedência
sobre a matéria e que o idealismo não
tem prevalência estava inflingido um golpe mortal nas religiões e na crença em
divindades.
Ficou claro,
para mim, que, ao contrário da definição de Deus como um ente
onisciente, onipotente, onipresente, incriado, sem princípio e sem final, é a
matéria que tem estas características: onipresente porque está por toda parte,
onipotente porque pode se fazer dela tudo, onisciente porque da materia sabe-se
tudo, aprende-se tudo, incriada porque a matéria, como qualquer homem, sempre
existiu e sempre existirá como o fogo eterno que como disse Heráclito, não foi
criada por ninguém, nem por deus nem por nem por qualquer ente sobrenatural,
que não se apaga, não se extingue, não teve princípio e nem terá fim.
Verdadeiramente não havia mais lugar para Deus nas
minhas elucubrações acadêmico-filosóficas. Uma questão que para mim estava
resolvida, ainda não foi resolvida por mais de 95% das pessoas que habitam o
planeta. Mas, mesmo assim, mesmo sendo parte de ínfima minoria das pessoas que
habitam o planeta que compreendeu a questão filosófica materialismo versus idealismo, e optou pelo primeiro, que não acredita num ser
sobrenatural, continuo, já por mais de 50 anos, acreditando
que um dia a humanidade mudará, como eu mudei. Da mesma forma, como me
convenci que o socialismo é melhor do
que o capitalismo, continuo acreditando, mesmo após os reveses sofridos no
século XX , que um dia a humanidade se convencerá disso como eu me convenci.
Passarão séculos, mas acredito que a
humanidade mudará...um dia... e se libertara’ da opressão
idealista.
JOSE
JONAS DE CARVALHO
Adv.jjonas@gmail.com
Eu sou mineiro, nascido em 1941, numa cidadezinha do sudeste de Minas, chamada São Vicente de Minas. Até os 20 anos, eu , ainda, acreditava na existência de Deus. Desde então comecei a passar por uma crise de fé. Comecei a perceber que havia algo errado comigo. Estudava em Belo Horizonte, frequentava os cultos da Igreja da Boa Viagem mas não me sentia bem com aquela liturgia ou fazendo aquelas orações repetitivas desde criança. Não conseguia me convencer de que a fé pura e simples em Deus fosse suficiente para aplacar a minha vontade de saber mais sobre a origem, a finalidade da vida e a existência de um Deus poderoso criador do mundo, onipotente, onipresente, onisciente, incriado que era bom e mau ao mesmo tempo, que podia dispor da vida dos homens tão diferentes entre si. Uns ricos e opulentos e outros pobres e miseráveis. Que distribuía benesses e graças, premiava os bons e punia os maus. Não conseguia entender a diferença entre ser bom e ser mau. Não conseguia acreditar: se fossemos bons morreríamos para viver uma vida eterna num paraíso que não conseguia entender como era e para que serviria, e, se fossemos maus morreríamos para viver ardendo no fogo do inferno, também sem saber para que. Não assimilava, por isto, a ideia de céu, de inferno e de purgatório e ,com tantas dúvidas, já duvidava da existência de uma vida sobrenatural. A fé era muito pouco para tantas dúvidas que assolavam o meu pensamento. “A fé não se explica; a fé é um dom de Deus” repetiam os padres. Era preciso rezar muito e pedir a Deus para não perder a fé o que seria a maior desgraça que pode acontecer a um homem, diziam. Era tudo meio confuso e contraditório e eu, dia após dia, ia “perdendo a fé” e duvidando de tudo. Por que então eu ficava preocupado com religião ? indagava de mim mesmo.A religião tornou-se para mim, uma permanente inquietação. Eu queria saber mais. Eu queria mais justificativas, mais provas de que a religião era fundamental. Procurei buscar explicação nos livros, mas quase todos falavam da mesma coisa: fé, muita fe. Lia muito. Até que um dia veio-me, `as mãos, um pequeno livro cujo título era “A origem da Vida” de um cientista russo chamado Aleksandr Oparin. Li com ansiedade, aquele pequeno livro, que me deixou perplexo. Não se falava de Deus em nenhum momento como origem da vida. A tese criada por Oparin, na década de 1920, era de “coacervados” moléculas orgânicas que se formavam a partir de moléculas inorgânicas. Matéria de biologia que, entretanto, como a teoria da evolução de Charles Darwin, não era ensinada na escolas por influência e oposição da religião e da teoria do creacionismo esta sim ensinada na forma de uma historinha de Adão e Eva. Começava ali a desmoronar toda a minha crença em Deus e nas religiões.
II-
MINHA INFANCIA
Foram 20 anos
de religiosidade. Desde muito pequeno fui criado, pelos meus pais, na crença em Deus, na religião católica e na
prática religiosa das orações e cultos religiosos como a reza do terço todos os
dias e a missa aos domingos, mas já achava
super enfadonho o tal terço, com aquelas
tediosas repetições de “aves marias”. Aquilo era para mim uma tortura. Meu pai,
diariamente, obrigava-me e a meus
irmãos, ao anoitecer, a ajoelhar em torno da cama do quarto dele, para o tal
terço.
Aos seis anos
já era coroinha, na igreja. Rezava a missa respondendo em latim ao que o padre
falava em latim: o padre entoava “Introibo ad altare Dei” e eu respondia “Ad Deo qui laetifica
juventude mea ...” Ainda não entendia o significado daquelas palavras mas sabia
tudo de cor. Aos poucos eu ia me envolvendo cada vez mais com as coisas da
Igreja para alegria e satisfação de meus pais que se orgulhavam do coroinha que falava latim,tinha um função na igreja e, assim,
se
sentiam bem com Deus. Confesso
que já nesta época eu tinha alguma dúvida com relação a validade de tudo
aquilo, culto, missas, terços e tinha
uma indisfarçável vergonha de mim mesmo, vergonha de ser coroinha. Lembro-me
que às vêzes via na igreja pessoas desconhecidas, de fora, rezando e assistindo missa e me
perguntava: será que estas pessoas acreditam nisso ?
Apesar
de muito religioso ou até mesmo por isto, meu pai era muito severo
comigo. Filho mais velho carreguei sempre o fardo pesado desta condição. Meu
pai me privava de tudo que ele considerasse vagabundagem e semvergonhice. Brincar
e viver alegremente, como uma criança normal, era proibido. Modernidades,
brinquedos, lazer, futebol, nem pensar. Certa
vez fui escondido pescar com um amiguinho e seu pai.Quando voltei para casa
levei uma surra.Meu pai dizia que pescar era coisa de vagabundo. Eu tinha só
que estudar, trabalhar e rezar. Qualquer desvio desta conduta era reprimido com
surras memoráveis e castigos duríssimos. Um dia meu pai apareceu com um livro
escrito por um padre chamado Lucas. Era sobre a vida de um menino de Monsenhor
Paulo, cidade perto de Varginha, que estudara no Seminário de Campanha, e que
ficou doente e acabou morrendo como um santo , segundo o Pe.Lucas. Não me lembro o nome do menino. Meu pai mandou
que todos os dias eu devia ler o livro em voz alta para ele. Eu mal aprendera a
ler e às vezes soletrava as palavras ou pronunciava errado e era repreendido.
Como castigo meu pai mandava copiar aquela página ou aquela palavra várias vezes
num caderno. Por fim eu já tinha copiado o livro inteiro. A leitura do livro
talvez tenha despertado em mim a vontade ou ideia de ir para o Seminário em Campanha
estudar para ser padre, até porque era uma maneira de ficar livre da opressão
de meu pai. Falei com o pároco da minha
cidade, que queria estudar para ser padre.Ele
aprovou a ideia, mas era preciso
concluir o curso primário.
Enquanto isso a minha vida era assim: estudar, trabalhar,
rezar e apanhar. Brincar nem pensar. E todas as vêzes que dava uma fugidinha
para brincar, jogar pelada, na rua,
ouvia um assobio fino e estridente, que meus amigos e eu já conhecíamos. Era meu pai chamando para dentro de casa e vinha
logo uma reprimenda ou uns petelecos na cabeça, Aos 6
anos era obrigado a levantar às 4 horas da madrugada para ir, com meu
pai, ao sitio tirar leite. Todos os dias, naquela hora, meu pai me acordava e
eu tinha que deixar a cama quentinha onde dormia com mais dois irmãos menores,
para enfrentar, com calças curtas, o frio da madrugada. E lá ia eu, atrás de
meu pai, pelas ruas escuras e desertas, da minha pequena São Vicente, ouvindo
os galos começando a cantar aqui e acolá. Antes de o dia clarear, eu já tinha
juntado os bezerros e buscado as vacas no pasto, com o orvalho molhando as
minhas pernas nuas e pés descalços. Eu aprendi pequeno, porque meu pai assim o
queria, a amarrar as pernas das vacas e o pescoço dos bezerros na perna direita
das vacas. Meu pai tirava o leite em um balde e colocava em umas latas com
tampa de rosca. Havia um cavalo branco que
levava as latas para a fábrica de laticínios na cidade. Eu sempre era o primeiro a chegar
puxando o cavalo e tinha que ouvir todo dia a gozação dos empregados: “madrugou
hoje hein Zé ? Seu Datinho (apelido de meu pai) não te dá moleza. Bota o menino
cedo pra trabalhar... Tem que esperar. O tanque ainda não está pronto”. Era
assim, dia após dia, até que o sítio foi vendido, imagina a quem, ao pároco.que
gostava bem de uns bens.
Sempre tinha um
trabalho para fazer, ou então tinha que pajear os irmãos menores. Outro
trabalho que tinha depois que voltasse da escola,quando não estava pajeando, era
coar terra numa peneira. Meu pai tinha uma máquina de beneficiar arroz que
separava o arroz da terra que vinha da roça, misturada no arroz, antes de
descascá-lo. Mas alguns grãos de arroz ficavam misturados com a terra e eu
tinha que coá-la para aproveitar estes grãos. Eu tinha entre 7 e 9 anos. O pó da terra entrava pela boca e
nariz e formava barro na minha garganta. Meu pai criava porcos e galinhas, no
quintal da casa, e eu era quem os tratava, todos os dias. Depois meu pai montou
uma engarrafadora de aguardente e eu era obrigado a lavar as garrafas e retirar
os rótulos velhos colados nas garrafas. Eram centenas de garrafas por dia. E assim chegou o dia de me livrar destes
trabalhos, das surras, das rezas e dos castigos. Aos 11 anos terminei o curso
primário, fui para o Seminário estudar para ser padre...
III
– O SEMINÁRIO
Num certo dia
de fevereiro, de 1953, como sempre de madrugada, meu pai me acordou. Ia me
levar para o Seminário, em Campanha. Meu pai havia comprado uma caminhonete Doodge azul. Nesta época ele estava montando
uma fábrica de laticínios na fazenda de minha avó materna e a caminhonete era
para a lida na fábrica. Minha mãe preparou minha mala. Dizia que era o meu
enxoval para o Seminário. Não entendia bem porque minhas roupas eram chamadas
de enxoval,que eu ouvia dizer que era so
para noiva. E lá fomos nós para Campanha. Meu pai contratou um motorista
para ir dirigindo a caminhonete. Eram mais de 150 km de estrada de terra, que
passava por Andradina (Minduri), Cruzília, Caxambu, Conceição do Rio Verde,
Cambuquira e Campanha.Tudo era novidade para mim que nunca havia saído de
S.Vicente. Chegamos em Campanha às 14hs. Senti um cheiro forte de flor de mamão
exalando pelas ruas da cidade. Aquilo ficou marcado para sempre na minha
lembrança. Era tudo muito diferente do que eu estava acostumado. A cidade era
calçada de paralelepípedos que eu não conhecia e achei aquilo bonito.
Fomos direto para o Seminário e fomos
recebidos pelo Reitor Pe. Domingos. Meu pai pediu para receber uma benção do
Bispo D.Inocêncio Engelke. O Padre nos levou ao Palácio que ficava em frente ao
Seminário. Aquilo tudo era um deslumbramento para mim. Um palácio ! O Bispo ! O
Seminário ! Chegou a hora da despedida. Eu ia ficar só e indefeso. Meu pai
voltaria com o motorista para S.Vicente. O coração estava apertado, mas não
chorei. Bateu uma saudade imensa da minha mãe e dos irmãos. Quando comecei a
desfazer a mala para colocar no armário que me foi destinado, encontrei dentro
da mala um pedaço de queijo prato com um pedaço de goiabada, escova de dente e
dentifrício Kolynos, além das roupas e toalhas arrumadinhas que minha mãe
colocara. Aquilo me tocou profundamente e a saudade bateu forte. Será que aguentaria
aquela dor ? Nunca pensei que ia sentir tanta falta de minha mãe. Era muito
intenso. Chorei baixinho. Uma sineta
tocou e fomos chamados para um lugar conhecido como Pórtico, nunca ouvira falar
deste nome. Era um lugar onde os seminaristas normalmente se reuniam ou faziam
fila antes de ir para a Capela ou para as salas de aulas ou para o Dormitório
ou para o Refeitório.
Ali
reunidos, perfilados, todos os seminaristas, chegaram alguns padres
e à frente deles o Pe.Domingos. Um silêncio sepulcral tomou conta do Pórtico.
Pe. Domingos era temido pelos alunos e começou a fazer uma preleção, sobre as
principais regras e recomendações. Estava curioso para saber qual daqueles
padres era o Pe. Lucas do livro. Eles foram se apresentando e o Pe. Lucas era
alto e corpulento , tinha um semblante sereno e um sorriso tênue quase cínico,
nos lábios.Olhei com admiração aquele escritor que via num menino seminarista qualidades
de santo, mal sabia eu que, ele
mesmo não era nada santo... Havia uma separação, de um lado ficavam os seminaristas
maiores, eram quase padres e de outro os menores. Havia seminaristas de todas
as cidades do sul de Minas. Entre os maiores havia dois de S.Vicente e entre os
menores havia além de mim mais três. Campanha era a sede da diocese a qual
pertencia S.Vicente. Não vou descrever os cinco anos que passei no Seminário, o
que é objeto de outras considerações, apenas dizer que antes de ser ateu
quase me tornei padre, aprendi latim e
li e reli a Bíblia. Ali fui moldado e esculpido na melhor forma religiosa.
Afinal eu ia ser um padre, o pregador da palavra de Deus, o representante de
Deus, na terra, como diziam. Portanto não me tornei ateu por ignorância
religiosa, comodidade ou conveniência. Tinha muito conhecimento da religião.
Posso dizer que sei muito da missa, da bíblia e de outras coisas mais.
IV
– A DESCRENÇA
Aos 17 anos,depois de cinco
anos de Seminario,numas férias, falei com minha mãe e depois com meu pai que eu
não queria mais estudar para padre. Antes passei maus momentos com medo da
reação deles e mais ainda sentindo o quão eles iriam ficar tristes com a minha
decisão. Não sei o que eles sentiram por dentro com a notícia que lhes dava. Só
me lembro que eles foram compreensíveis comigo. Estudei, depois, dois anos em
um internato em Cruzília onde também estudavam quatro irmãos meus. Aos 19 anos
fui para Belo Horizonte estudar o curso científico. A crise religiosa começou,nesta
epoca. Após ler o livro de A.Oparin eu
não parei mais de ler tudo que me passava pela frente, além dos livros de Direito. Li filosofia, história, sociologia e cheguei aos
alemães, o dialético J.Hegel, o materialista L.Feuerbach e os amigos Karl Marx e F.Engels fundadores
da corrente filosófico-economico-sociológica, conhecida como marxismo. Nunca
imaginara que tanta gente, na História, já tratara daquelas questões que me
afligiam. Eu começava a descobrir um mundo novo. Li muitos livros marxistas, socialistas e
comunistas porque eram onde eu encontrava as explicações e interpretações mais
racionais e lógicas que eu procurava e precisava e que me davam muita satisfação. Comecei a perceber porque a
religião anatematizava tanto os comunistas, considerados hereges e contra Deus.
Era como se eu estivesse mudando de lado. De seminarista, religioso passei para
o lado de socialistas revolucionários e ateus. Uma mudança radical. Do lado santo passei para o lado herético, do
mal. Mas aquilo não me apavorava e nem me preocupava. Pelo contrário. Era algo
fenomenal acontecendo comigo. E cada vez mais eu lia e descobria um novo mundo
se abrindo à minha frente. Parecia que eu estava saindo das trevas da fé e da
religião e entrando num mundo luminoso da vida; saindo da opressão da mente
para a sua libertação. Agora tudo que era obscuro se tornava absolutamente
claro e límpido. E foi assim que comecei uma grande caminhada pela vida e pela
filosofia marxista. Procurei ali uma opinião de Marx sobre Religiao e encontrei na sua “Critica da filosofia de
direito de Hegel”. Ele dizia: “A
religião é o suspiro da criatura atormentada, o coração de um mundo sem
coração, como é o espirito de uma existência sem espirito. É o opio do povo.” Perguntado
como se prova a existência de Deus, Marx
respondeu “como posso provar o que não existe...”. Voltaire,repetindo Heraclto,
dizia que Deus é uma criação do homem. Neste momento já podia dizer que a ideia de
Deuns estava irremediavelmente morta em mim. Outra ideia tomava conta dos meus
pensamentos, a ideia de que havia muito mais coisas entre o céu e a terra do
que imaginava a minha pobre ignorância e
queria saber tudo delas.
V
- A FILOSOFIA
Eu já havia estudado Historia da Filosofia,
uma das matérias do vestibular de Direito,em 1964, juntamente com Latim, mas
nada que se igualasse à Filosofia marxista. As teses de Platão, de São Tomaz,
de Santo Agostinho, de Berkeley e de Bergson, que até então me pareciam interessantes se esvaiam como
fumaça, ante a tese materialista dialética
marxista. Até filósofos considerados agnósticos como Hobbes e Espinosa ou materialistas como Heráclito, Demócrito,
Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Bacon,
Locke e Descartes ficavam pequenos ante a contundência do materialismo dialético marxista. O próprio
Hegel ,considerado gênio da filosofia moderna , foi criticado por
Marx como um dialético idealista que
não soube colocar a dialética de cabeça
para cima. Admirador do materialista Feuerbach, Marx o criticou por conceber de forma idealista o desenvolvimento
da sociedade atribuindo `a moral e `as
relações morais forca motriz da Historia.
E assim ia descobrindo que a filosofia
que eu estudara, antes, era uma filosofia equivocada e teísta por conta também
do meu teísmo. O saber abaixo de Deus. Havia
uma outra filosofia , que procurava o saber acima e além de Deus. Aprendi que a filosofia autêntica não girava em torno
Deus, mas ao redor do mundo material em que vivíamos.Tudo se explicava. Tudo se
encaixava claramente. Não havia nada que dependesse de fé. Era pura ciência. A
única limitação era a ignorância humana. Mas tudo estava aí, mais claro que a
luz do sol para o homem entender e compreender. Era apenas necessário romper os
grilhões da simples fé, da simples crença e e da ignorância e substituí-los
pelo conhecimento e pela ciência. Ciência é conhecimento empírico, testado e
incontestado. Ciência é a simbiose do homem com a matéria. Esta matéria que
está aí, perto de nós, ao nosso redor. Nada além disso, nada do além é
necessário. Tudo está aqui ao nosso redor.
Assim eu ia selecionando as minhas leituras e
abandonando o estudo da filosofia teísta que coloca Deus no centro do
pensamento e me dedicava ao estudo da filosofia
marxista que coloca a matéria neste centro.
Aprendi com o
marxismo que a filosofia teísta é
conhecida como Idealismo porque
atribui à ideia (Deus) a origem ou criação da matéria. Daí a conclusão
idealista de que a matéria é criada pela idéia. Que ideia ? O espírito, o
pensamento, a consciência. Para os idealistas a matéria foi criada por um
espirito (Deus), ou seja Deus criou do nada o mundo e tudo o que nele existe,
como eles sempre dizem.
Ao
contrario, a filosofia conhecida como Materialismo, o é porque atribui à matéria
(ser , natureza) a origem ou criação da
idéia. Daí a conclusão materialista de que a ideia, o espírito, o pensamento, a
consciência, inclusive Deus, são fenômenos decorrentes da matéria. Mas que matéria ? Tudo
o que compõe a materialidade do mundo, o ser, a natureza e os fenômenos
naturais. O cérebro humano , por exemplo, é uma matéria, palpável e objetiva. É
ele que gera a idéia, o pensamento, a consciência. Isto eu aprendi com F.Engels,
um filosofo amigo de Marx, em “AntiDuhring”.
Corte-se a cabeça de um homem e ele não pensará mais, não terá ideias, não terá
consciência. Por outro lado, as ideias, os conhecimentos armazenados no cérebro
são reflexos da realidade objetiva. Só se tem ideia de um objeto depois de se
ver e observar este objeto. Não se tem ideia de algo que não exista
objetivamente, concretamente.
Aqueles
que defendem a tese de que a idéia
(Deus, o espírito, o pensamento, a
consciência) deu origem à matéria são
conhecidos como Idealistas, no
sentido filosófico. Já os que defendem a tese de que a matéria (o ser, a
natureza) é que deu origem à ideia (espírito,pensamento e consciência) são
conhecidos como Materialistas no
sentido filosófico.
Eis aí, segundo Georges Politzer, um
professor francês de filosofia na Universidade Operária de Paris e que morreu
pelas balas nazistas em Mont Valerian, em maio de 1942, quando lutava contra a
ocupação nazista da França, os dois princípios fundamentais da filosofia sao: Idealismo e Materialismo. Dizia ele “...o mundo em seu conjunto se
explica, em última análise, por dois princípios e dois somente. Estamos na
presença inevitável do problema fundamental da filosofia: o idealismo e o
materialismo.” Tambem V.Afanasiev, em seu livro Fundamentos de
Filosofia(Ed.Civilizacao Brasileira-1968) ressalta a oposição entre Idealismo e
Materialismo como o problema fundamental da Filosofia.
Portanto, Idealismo, no sentido filosófico, é a concepção segundo a qual a idéia,(a
consciência, o pensamento) é anterior, precede à matéria e Materialismo, no sentido filosófico, é a concepção segundo a qual a matéria (o ser, a natureza) é anterior, e precede à idéia.
Idealistas no sentido filosófico são os defensores do
idealismo no sentido filosófico. Materialistas no sentido filosófico são os
defensores do materialismo no sentido filosófico. Estes termos diferem, pois,
dos mesmos termos no sentido vulgar, que aliás, passam a ter significados
totalmente contrários. Idealistas no sentido vulgar são pessoas com idéias
nobres e materialistas no sentido vulgar são pessoas apegadas aos bens materiais. Não fazer
corretamente estas distinções pode levar a conceitos totalmente equivocados.
Com estes conceitos e considerações, a crença em Deus
ficava cada vez mais insustentável. Lendo Marx pude tomar conhecimento de
Feuerbach ,um materialista que definiu lapidarmente : “não foi Deus quem criou
o homem, mas o homem é quem criou Deus”,
talvez repetindo Voltaire e outros filósofos mais antigos como Heraclito,que já
dizia a mesma frase. Esta frase me fez pensar muito e constatar, na realidade,
o quanto era verossímil. Feuerbach desenvolve a tese de que o homem em busca de
explicação para a sua existência, se projeta, se aliena para fora de si e cria
um Deus poderoso a sua imagem e semelhança. Eu diria que. na sua ignorância e
incapacidade de compreender os fenômenos naturais, como a chuva, o raio, o
relâmpago, o trovão, o homem os atribuía
a uma manifestação de um ser que tinha tanta força e poder que era capaz de provocar
tanto temor e pavor. A este ser denominou de deus, deuses a principio, na
antiguidade e depois Deus único, na
modernidade. Por não saber o que eram as estrelas, o sol, a lua,o mar, etc. o
homem os elegia como deuses e os adorava. Hoje sabemos que aquelas
manifestações e estas coisas são simplesmente matéria, e mesmo assim, a maior
parte da humanidade, ainda, continua insistindo na existência de um Deus, criador desta matéria.
O idealismo é uma concepção do mundo que vem desde os
primórdios do gênero humano. O homem primata convivia com a matéria (a
natureza), mas não tinha ainda o desenvolvimento intelectual suficiente para entender os fenômenos
materiais (da natureza) e os atribuía a uma entidade sobrenatural. Assim o
idealismo nasceu com o homem primitivo. Milhões de anos se passaram e o
idealismo prevalecia como verdade incontestável de povos e civilizações que se
sucederam desde o aparecimento do “homo
sapiens”. É por isto que o idealismo chegou, com força determinante, até nossos
dias a ponto de mais de 95% dos atuais habitantes da terra acreditarem, ainda, que um ser sobrenatural é quem criou e rege o
universo.Isto é o idealismo. A ideia precede a matéria. A ideia cria a matéria.
Já o materialismo é muito jovem. As primeiras
manifestações do materialismo que se conhecem no mundo ocidental surgiram entre
540 e 480 anos a.C. quando viveu o
pensador grego Heráclito que foi o primeiro materialista filosófico, de que se tem noticia. Na India 400 anos a.C. viveram os Charvakas,
os Sankhyas, os Nyayas, os Vaiseshikas e outros que manifestavam conceitos ou
pensamentos materialistas.
Heráclito declarava que tudo ocorre por meio da luta e
por necessidade. O homem traz implícito o vivo e o morto, o vigilante e o
sonolento, o jovem e o velho. As coisas podem estar frias e quentes, secas e úmidas,
passando constantemente de um estado a outro, o frio esquenta e o quente
esfria. O úmido seca e o seco umidece. Estas são as primeiras manifestações
dialéticas de que se tem notícia. Estas manifestações são a origem do método
dialético fazendo, assim, de Heráclito, ainda que com sua dialética
materialista ingênua, o fundador da primeira forma do pensamento dialético. Ele
dizia que tudo fluía e se transformava e que era impossível mergulhar duas vezes
no mesmo rio. Para ele o fogo era um fenômeno natural, móvel , o elemento ativo
e eternamente vivo do mundo, este mundo que não foi criado por deus nenhum nem
por qualquer homem, mas sempre existiu e continuará existindo como um fogo
eternamente vivo,acendendo-se e extinguindo-se. Depois de Heráclito, entre 460
e 370 a.C. viveu outro grego chamado
Demócrito que formulou a teoria atomistica (estrutura da matéria). Dizia
que o mundo estava constituído por átomos e pelo vazio. Os átomos eram
partículas invisíveis da forma e tamanho distintos que combinando-se uma com as
outras criavam toda a diversidade de objetos sem sofrerem elas próprias
alterações alguma. Para Demócrito os
átomos eram imutáveis, eternos, indivisíveis e impenetráveis. Impressionantes
estas afirmações sabendo-se que, 2 mil anos, depois, a fissão nuclear do átomo
provocaria uma explosão e uma revolução na física. As ideias de Demócrito
eram combatidas por outro grego Platão
(427 a347 a.C.) que era um idealista. Platão afirmava que os materialistas e
ateístas como Demócrito e seus discípulos eram criminosos perigosos e defendia
a pena de morte para eles.
Entre
384 e 322 a.C viveu, também, na Grécia o filósofo Aristóteles que combatia Platão embora tivesse sido seu discipulo, afirmando
que o mundo material existia objetivamente e que a natureza não dependia de
ideia alguma e foi o primeiro a afirmar que a matéria estava em constante
movimento classificando-o em tres
estágios fundamentais: nascimento, transformação e destruição. Dois mil
anos depois o químico Lavoisier
faria uma correção na teoria aristotélica do movimento afirmando absolutamente
que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”
Poderíamos relacionar aqui os chamados
filósofos idealistas e os filósofos materialistas da era moderna, facilmente
identificáveis através de seus textos e de sua teorias, mas não cabe neste
momento.
E assim, os filósofos materialistas,
desde Heráclito até Marx, iam dando a sua importante contribuição para destruir
a hidra idealista que ainda insiste em manter escravizados mais de 95% da humanidade.
Vimos, portanto que a questão
fundamental da Filosofia é a questão do Materialismo versus Idealismo.
Basicamente a filosofia se resume no estudo comparativo destas duas teorias.
Fora destas duas teorias, o resto é
variações de um mesmo tema. E deste núcleo fundamental, a teoria materialista é
infinitamente superior em racionalidade, em cientificidade e em veracidade à
teoria idealista.
VI- A
RELIGIÃO
Da teoria idealista decorrem as inúmeras crendices e
religiões que assolam a humanidade e são responsáveis por todas as desgraças,
tragédias guerras, sofrimentos e mortes do homem. As religiões e crendices
são o flagelo da humanidade. Sem sombra
de dúvidas a teoria idealista é o que há de mais maléfico e perverso que há na face da Terra. Milhões de seres humanos
tombaram e tombam por causa e em conseqüência desta famigerada teoria. Esta
teoria é a causa e a responsável também pela manutenção da ignorância humana
ate nossos dias. É uma erva daninha difícil de ser erradicada porque ela
manipula o medo e o egoísmo do homem através da crença numa vida sobrenatural
povoada de espíritos e divindades que alimentam o ideário, o imaginário humano
das crendices mais bizarras e irracionais possíveis. Basta entrar numa igreja ou
templo qualquer, destes que brotam como cogumelos, por toda parte, e ouvir, ali,
o que se prega, o que se fala e o que se propaga. Instila-se, à exaustão, o
medo ao fogo eterno para onde irão as pessoas pecadoras e não tementes a Deus
ou que não se submeterem `aqueles conceitos.O pecado é a invenção da religião
para enquadrar o homem nos cânones da religião e inculcar nele a culpa que o
faz submisso, sob pena de ser condenado ao fogo eterno(o inferno). Por outro lado, prega-se, para atrair as
pessoas fragilizadas, medrosas ou com problemas de saúde e de dinheiro, a solução de todos os seus
problemas, a cura de todas as suas doenças. Promete-se o paraíso e a vida
eterna e a bem aventurança no céu. O
egoísmo e o oportunismo dos medrosos e fragilizados são massageados e manipulados para que aceitem aquelas palavras de salvação
e promessas desde que façam oferendas a Deus ou melhor aos pregadores. O homem
medroso dos terríveis castigos da divindade pensa que ele é mais esperto que os
outros e que vai conseguir o melhor lugar na bem-aventurança celestial e vai
ter vida eterna. Então é impelido ou compelido pelo seu egoísmo a abraçar
aquela religião ou crença e contribuir financeiramente para ser compensado
privilegiadamente, não só na eternidade como na vida terrena, com a solução dos
seus problemas. Egoísmo e medo é a mola propulsora do crente; do fiel, só
hipocritamente submisso aos ditames da religião. Há uma proposta compensatória
ao fiel submisso. Pela sua adesão e submissão receberá, além da vida eterna, no
paraíso, todas as benesses aqui na terra como solução de seus problemas, cura
de suas doenças, emprego, sucesso nos negócios, no amor, no casamento, ganho de
dinheiro, etc. etc., desde que contribua financeiramente com a sua seita,
igreja, comunidade ou que quer que se denomine. Daí o surgimento de colossais
impérios econômicos e financeiros como o da chamada Igreja Universal do Reino
de Deus, da Igreja Católica, da Igreja Renascer, da Igreja dos Santos dos
Últimos Dias, da Igreja da Graça, da Asembléia
de Deus, para citar só algumas espalhadas pelo Brasil. Há outras milhares no mundo todo. Éh a erva
daninha que se alastra por todo o globo terrestre. É a hidra da qual quanto
mais se cortam as cabeças mais cabeças nascem. Elas dominam, sufocam e escravizam a
humanidade, mantendo-a submissa aos seus perversos desígnios..
O motivo, pois, que faz o homem aderir
a estas religiões, é, além da própria ignorância frente à vida, à ciência, e à
razão, o egoísmo de querer obter para si,
a vida eterna, as benesses terrenas e sobrenaturais e o paraíso. É o medo de ser
condenado ao fogo eterno do inferno,também criado pela ignorância humana e
propalado pelas religiões como um lugar imaginário para onde irão os rebeldes e
insubmissos..
As igrejas, as seitas e as crendices
têm também o papel de subjugar o homem na sua personalidade, mantê-lo submisso
e conformado com a sua indigência em troca de vida eterna. Com isto ganham os
poderosos e ricos, normalmente aliados das igrejas, pois seus empregados não
vão ficar reivindicando seus direitos terrenos na esperança de obter os seus
direitos celestiais. Portanto a religião e as crendices estão também a serviço dos poderosos e oportunistas que
precisam manter na ignorância e na submissão as pessoas que trabalham para
eles. A religião, ao contrário do que pensam os crentes, ao invés de ser uma
forma de libertação e salvação, é uma
forma de escravidão, de subserviência da qual se beneficiam os espertalhões
picaretas,papas,bispos padres, pastores,apóstolos e os ricos e poderosos que
não terão porque temer a ameaça dos crédulos e crentes aos seus interesses.
Basta ver os dez mandamentos de Moisés. São normas de enquadramento e de
submissão do homem. Alguns ditames morais apenas dissimulam este enquadramento
e submissão. A rigor, pois, o objetivo é fundamentalmente o de sujeição,
submissão e dominação; manter sob os grilhões da ignorância que escravizam
moral e psicologicamente milhões de pessoas, enfim, mantê-las conformadas com as vicissitudes da
vida terrena para ganhar a vida eterna.
VII
– CONCLUSÃO
Por tudo isto e
muito mais eu abandonei o idealismo filosófico e abracei o materialismo
filosófico e, consequentemente, me tornei ateu posto que a crença religiosa, a crendice e a fé no
sobrenatural são incompatíveis com o
materialismo filosófico que nega a existência de Deus e do sobrenatural.
Resolvida, para
mim, a questão da prevalência e da precedência da matéria sobre a ideia, estava resolvida a grande e única
questão filosófica materialismo versus idealismo. Provado que a ideia não tem precedência
sobre a matéria e que o idealismo não
tem prevalência estava inflingido um golpe mortal nas religiões e na crença em
divindades.
Ficou claro,
para mim, que, ao contrário da definição de Deus como um ente
onisciente, onipotente, onipresente, incriado, sem princípio e sem final, é a
matéria que tem estas características: onipresente porque está por toda parte,
onipotente porque pode se fazer dela tudo, onisciente porque da materia sabe-se
tudo, aprende-se tudo, incriada porque a matéria, como qualquer homem, sempre
existiu e sempre existirá como o fogo eterno que como disse Heráclito, não foi
criada por ninguém, nem por deus nem por nem por qualquer ente sobrenatural,
que não se apaga, não se extingue, não teve princípio e nem terá fim.
Verdadeiramente não havia mais lugar para Deus nas
minhas elucubrações acadêmico-filosóficas. Uma questão que para mim estava
resolvida, ainda não foi resolvida por mais de 95% das pessoas que habitam o
planeta. Mas, mesmo assim, mesmo sendo parte de ínfima minoria das pessoas que
habitam o planeta que compreendeu a questão filosófica materialismo versus idealismo, e optou pelo primeiro, que não acredita num ser
sobrenatural, continuo, já por mais de 50 anos, acreditando
que um dia a humanidade mudará, como eu mudei. Da mesma forma, como me
convenci que o socialismo é melhor do
que o capitalismo, continuo acreditando, mesmo após os reveses sofridos no
século XX , que um dia a humanidade se convencerá disso como eu me convenci.
Passarão séculos, mas acredito que a
humanidade mudará...um dia... e se libertara’ da opressão
idealista.
JOSE
JONAS DE CARVALHO
Adv.jjonas@gmail.com
São
Vicente de Minas, outubro de 2012
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