Convicções Filosoficas

 

II  -

 

Quando tinha 19 anos,  caiu nas minhas mãos um livrinho. Não me lembro se o peguei na biblioteca ou como foi. O titulo era intrigante para mim porque estava exatamente a procura desta explicação A ORIGEM DA VIDA cujo autor era um cientista e professor russo chamado Aleksander Oparin. Li com sofreguidão esse livro, em um dia. Fiquei deslumbrado com a descoberta. Muito mais tarde, já nos anos 2000,  vim a saber que a teoria de Oparin passou a constar como matéria curricular das cadeiras de química e de biologia de algumas boas escolas. A academia de ciência ocidental reconhecia,finalmente, como cientifico o trabalho de Oparin. Os estudos de Oparin são de 1924 mas só chegaram ao ocidente em 1930. A religião procurava impedir, de todas as formas, que a teoria de Oparin fosse estudada nas escolas confessionais porque colocaria em cheque a teoria criacionista. E as escolas não confessionais também não estudavam  a teoria de Oparin porque tratava da teoria de um comunista da Uniao Sovietica. O meu contato com a teoria de Oparin se deu em 1960, portanto eu sou contemporâneo do cientista que morreu em 1984, como herói da União Soviética.

A teoria de Oparin era baseada em seus estudos sobre os coaservados, partículas inorgânicas que se transformavam em partículas orgânicas existentes na terra há milhões de anos. Estes estudos foram feitos também por J,B.S.Haldane, geneticista marxista e biólogo inglês, também contemporâneo de Oparin.

O impacto deste livro, na minha vida. foi enorme. Acabaram, de imediato, todas as minhas atribulações. Sentia-me livre, leve e solto como se tivesse me livrado de um fardo nas minhas costas. Recomendava o livro para todo mundo e ate para uma namorada da cidade de Santos Dumont, que nunca mais mo devolveu. Naquele momento estava me tornando, definitivamente, um ateu convicto. E nunca mais deixei de se-lo.

 

III -   

 No social e politico as minhas atribulações começavam a surgir. Eu era um admirador dos Estados Unidos, talvez por causa da intensa propaganda que se fazia da cultura e da economia norteamericanas no mundo ocidental no pos guerra (guerra fria). Era um americanofilo. Lembro que certa vez tive uma discussão demorada  com um companheiro de republica que era antiamericano. Ele me fez ver muita coisa que a propaganda americana não me deixava ver.Tinha aversão ao comunismo por forca da pregação religiosa que demonizava o comunismo como ideologia ateia e contra a propriedade privada. Detestava a União Soviética por ser comunista.O movimento estudantil estava debatendo, nesta época, a interferência americana da USAID no Brasil. De defensor da Usaid passei a combate-la também. Fui atrás dos livros. Leitura, muita leitura. Filosofia e Sociologia. Li Max Weber e Karl Marx. Desse, li primeiro o Manifesto Comunista porque queria saber porque o comunismo era tão execrado pela imprensa, pelas igrejas, pelos EUA e países ocidentais.   Esse livro me despertou o iteresse pelo comunismo. Dai fui lendo outros escritos de Marx como o famoso Prefacio a Contribuicao a Critica da Economia Politica. A obra de Marx é vasta e dificílima, sendo a principal o Capital do qual não terminei nem o primeiro volume. Através de Marx cheguei a Engels do qual li a “Origem da Família, da propriedade privada e do Estado”,  “Do Socialismo Utópico ao socialismo científico” e “Dialética da Natureza”. Lia livros auxiliares para entender Marx como “Conceito Marxista do Homem” de Eric From, americano, Fundamentos de Filosofia de V.Afanasiev, russo e “Princípios Fundamentais de Filosofia” de Georges Politzer, francês assassinado pelos nazistas.  Nos anos 60 comprei um radio de válvulas e ouvia diariamente a Radio de Moscou, em português. Participava de movimentos políticos e sindicais. Resultado de tudo isto me tornei ateu e marxista e admirador da União Soviética cuja dissolução, em 1991, me frustrou bastante mas não abalou meus ideais socialistas. Acredito que a humanidade ainda chegara um dia `a Civilização, como disse certa vez Marx, estabelecendo uma sociedade humanizada, igualitária, justa, fraterna e solidaria, onde um homem novo se formara livre de ambição, de ganancia pelos bens materiais, livre de egoísmo e de maldades, livre de guerras, de misérias,de fome e de sofrimentos. onde se cumprira a máxima comunista De todos segundo suas possibilidades a todos segundo suas necessidades e onde haverá abundancia e livre disponibilidade de bens e recursos, que permitirão ao homem o pleno desenvolvimento de suas potencialidades. E o ciclo da vida será tanto mais leve,  agradável e feliz quanto mais longevo e saudável. 

 

IV -

 Nessas leituras sociológicas e filosóficas, principalmente nestas; quando eram introduzidas pelo marxismo deparei com  a principal questão da Filosofia: a luta do Materialismo contra o Idealismo. Definindo, filosoficamente, estas expressões temos que materialismo é a corrente filosófica que afirma que a matéria precede ou antecede a ideia,  na gênese do universo. Já idealismo é a corrente filosófica que afirma que a ideia precede ou antecede a  matéria, ou seja a ideia existiu primeiro que a matéria ou, ainda, a ideia criou a matéria. Para os materialistas, ao contrário, a matéria criou a ideia. Os idealistas acreditam que a ideia, Deus, criou a matéria. Os materialistas rejeitam esta teoria por falta de fundamento e consistência cientifica. Afirmam que o pensamento, a ideia, o conhecimento são produtos da matéria, do desenvolvimento da matéria em estágio avançado. O cérebro, por exemplo, é a matéria desenvolvida em estágio avançado. O cérebro gera o pensamento. Destruindo-se a cabeça de um homem, onde se localiza o cérebro, este homem deixará de pensar, deixará de ter ideias e conhecimento das coisas.

Foi por ai que cheguei a teoria  marxista do materialismo dialético e do materialismo histórico. Foi nas leituras do marxismo que cheguei ao conceito correto de idealismo e materialismo filosóficos. Interessante observar que estes conceitos não tem nada a ver com o conceito vulgar destas expressões, onde idealismo seriam  atitudes e desejos nobres, altruísmo e materialismo seriam atitudes de apego a bens materiais, ambição e falta de sentimentos nobres..

A teoria marxista do materialismo dialético é materialista porque, na solução da questão fundamental da Filosofia, parte da concepção de que a matéria, o ser, constituem o elemento primário e a consciência e o pensamento constituem o elemento secundário. Reconhece a materialidade e cogniscibilidade do mundo concebendo-o tal como é na realidade. É dialética porque considera o mundo em movimento, desenvolvimento e renovação constantes onde tudo se relaciona e se interage. A teoria marxista do materialismo histórico é histórica  porque analisa  toda história social da humanidade sob o mesmo processo do materialismo dialetico  

 Os  idealistas remontam aos primórdios da humanidade e por milênios veem dominando o pensamento humano.

Para  os idealistas a matéria, o Universo, tudo que nos cerca, inclusive a vida, os seres vivos, o pensamento e a consciência, foi criado por um ser superior onipotente, onipresente, onisciente, eterno a que chamam de Deus (a Ideia) e que a tudo rege e domina.

 

Para os materialistas o mundo e toda a matéria que existe no Universo, tudo que nos cerca inclusive a vida, os seres vivos,o pensamento e a consciência, nada foi criado por ninguém, nem pelo homem nem por um ser superior (Deus). É matéria que sempre existiu e sempre existirá e foi e será transformada pelo homem.  Daí a frase lapidar do químico frances Lavoisier: “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.


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